segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Céu de luz na Times Square.
Em meus dedos, silêncio.
O iPhone sem vida.
E eu me sinto inexplicavelmente vazio.
Céu de luz na Times Square.

Corro em busca de um lanche rápido.
Tropeço em quinquilharias.
Fumaça destemperada erupe da placa fria do boeiro.
Os letreiros luminosos
incendeiam a noite.
Babel de todas as compras.

Japoneses inusitados.
Novos ricos afetados.
Suecos estasiados.
Brasileiros ensacolados.
Franceses blassificados.
Alemães esquadrinhados.
Todos beatificados
com a igreja a céu aberto.
Os fiéis endinheirados.
Os fiéis endividados.
O fiel do senso congelado
eleva o olhar aos céus.
Céu de luz na Times Square.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Megamediatrends

Silenciosos e pacatos seguem
como rés e como res*.

Já sem discernimento,
com contentamento.

Já sem autonomia,
com entretenimento.

Silenciosos e pacatos vão
como se a um leilão:

seu labor por uma oferta
muitas vezes feita às pressas.

Silenciosos e pacatos trocam:

pores-do-sol não vividos,
paisagens para os sentidos

por um copo refrescante
com padrão transnacional.

Extensões do ser humano
ou, possível, mero engano:

os olhos em multicor
vidrados no monitor.

Silenciosos e pacatos estão:

digitando seus segundos,
aquém do aquém do mundo.

Naufragados entre amigos,
que escondidos,

permanecem como signos,
sem ter ouvidos,

sem ter braços ou sorrisos
quando é preciso;

apenas a procissão de informação
simulando integração.

Silenciosos e pacatos estão
desi(e)nformados,

num mosaico de metástases
unificados,

devorando e devorados.

Silenciosos e pacatos somem.


---
Nota: "res" (latim) = coisa

domingo, 20 de janeiro de 2013

C2H6O (*)

Por fim, estou cansado deste Mundo Novo.
Não me interessa a embriaguez.
Nada sei da Europa...
Apenas bytes raivosos
dela me falam, fingindo presença.
Não vejo graça nas ruas da metrópole,
nem as amo.
Como seria cantar meu cárcere?
Mas no lugar da voz, tenho um sample frenético,
transformando meus soluços
e os da cidade
em ritmo dançante.


(*) O poema parte de um diálogo com o primeiro verso do poema "Zona", publicado no livro "Álcoois", de Apollinaire.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

GESTÃO EX-TRAGÉDIA

É preciso  mensurAr
                           V
                           A
                           L
                           I
                          A
                        t R a t a r - equacionar = planejar / analisar    

 o    olhar para

  • projetar
  • capacitar
  • gerir
  • controlar
                                                         a Visão

                     

domingo, 6 de janeiro de 2013

Pastiche Rimbaud


Ó, Natureza! Ó, minha madrasta!
Nunca me entreguei inteiro a ti.
Fui (e sou) contra o fluxo e contra
os regulamentos sem o "se".

Ó, Natureza! Ó, minha madrasta!
Minha confissão é nada casta.
Eu amo subversõeZ e rupturas,
o que todos temem me atrai.

Ó, Natureza! Ó, minha madrasta!
Teu vale de proscritos me arrasta,
teus paladinos censuram e atacam
minha compulsão por todo amar.

Ó, Natureza! Ó, minha madrasta!
Termino, enfim, esta hercúlea carta
de quem se cansou de insolações
que as tuas regras plenas de sem-razões nos lançam.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

Desastre

Desastre.
Não mais perfeita palavra pra me definir.
Como é pobre meu tempo.
Apaziguei meu olhar com migalhas.

Vento de chuva ácida nos encefálicos corredores de mim.
Tribos tilintam ritos luminosos:
sobras do passado recicladas.
Eu: no sacerdócio da evocação de imagens.

Soam cânticos eletrônicos.
"Clair de lune" new age.
Cânticos de pôr-do-sol se vão...
Luar de Times Square.

Nunca caminharemos sobre a areia da praia.
A noite por dia cerra nossos olhos.
Apenas nas mentiras da memória
tua pele sem inverno reverbera.

Nunca jantaremos à beira-mar.
Sons de ondas no salão temático.
Meu lirismo corrompido por concreto
hospeda avatares de você.

Somos de algum modo desperdício.
Nossos corpos sadios paraplegiam-se
em cadeiras, em poltronas, ao volante...

A vida aquática dos sorrisos
em algum lençol guardado escorre.
Translúcida flui para além da insanidade.

Sombra incandescente, 
caçador de mistério
mergulho sedento em desertos.

Equívoco. Error.

Minha alma digital só queria ser helênica.
Tenho sede de coisas-da-vida.
Compartilhar se tornou solidão.

Quanto desperdício nessa ausência toda.

A vida é de um tal lirismo intransigente
que prefere o grão de areia ao diamante.

Reviro o meu baralho, Não encontro meu naipe.
A índole sintética de um coringa me escapa.
Todas as cartas são de ouro, levaram minhas espadas.
Sou de um outro jogo, mas perdi a regra
ou foi deletada.

"Desastre":
Não mais perfeita palavra pra me definir.

Como é pobre meu tempo.

Zip!


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Log-out


Cativo em horizontes de eletricidade,
toda cidade é templo.


Uma falha, uma pane
e a ausência de um nome.

Rogo à liberdade: morra!



sábado, 6 de junho de 2009

Sistema Integrado de Gestão e Acompanhamento *

-->

SIGA! Integre-se à Trilha do Estorvo,
esta camaradagem de engrenagem:

cordeiros pasmados;
servos engajados;

discurso institucional;

perfis programados,
pueris, adestrados;

plano organizacional;

olhos replicantes
bem pouco pensantes;

pavlov-capital;

fala rarefeita
– jargões, frases feitas –

no organo-drama geral.

*******

Eis nossa próxima pauta:

É preciso gerir a fala do poeta
para capacitar seu talento sem meta.



* O sistema SIGA é utilizado em muitas empresas com o fim de racionalizar os processos de trabalho. Entre suas contribuições estão: a garantia de que todas as pessoas envolvidas no sistema possam ser facilmente substituíveis para que o sistema produtivo não pare; a padronização dos procedimentos e das rotinas de trabalho; o aumento do controle sobre a produção e seus agentes; dentre outras estratégias que contribuem muito para a valorização do ser humano, digo, do capital humano.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Techtown Jungle

Estou cansado deste mundo novo
e sua embriaguês*.
Nada sei da Europa,
apesar dos
bytes raivosos
da tele-imersa-presença.


Não vejo graça
nas ruas da metrópole.


Como seria cantar meu cárcere

num uivo louco?

Mas no lugar da voz,
um
sample frenético
linka
meus soluços e a cidade.
Techtown jungle**.
E dançamos em torno
de fogueiras digitais.



* Referência ao primeiro verso de "Zona", em Alcóois, de Apollinaire.
** Jungle: variação do drum and bass nascida na Inglaterra no início dos anos 90, cujo termo é relacionado à favela jamaicana de Trenchtown. Características: baterias sampleadas em ordem quebrada e de alta velocidade (entre 160 a 180 batidas por minuto). Surgiu principalmente de uma variação do hardcore breakbeat e do rave britânico, por exemplo: Prodigy, Altern8 e A Guy Called Gerald.

domingo, 1 de março de 2009

Gravídeo


Pegadas sobre o espelho.
Cacos de mim m-esmo
ainda mais bonitos nas vitrines,
nos letreiros.

Meus desejos se amotinam,
nas pesquisas se organizam,
e renascem reciclados:
frascos do Agora em gotas,
cápsulas de segundos.

No espelho-vídeo infértil e líquido,
uma pedra faz saltar a hora pouca.
Suspenso, o umbigo-gota
grávido de pausa, cospe na in-potência
dos meus olhos.


Out-door

Enjaulado na cidade sem portas,
nos lab-rintos de mera passagem,
enquanto, no video, os canais rurais
homeopatizam a filogênica saudade,

mas é
no musgo
que desce
do topo
do prédio
qU'Encontro
a dor-
-orgasmo
de quem
renasce.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Um curto circuito


-->
Ficou de pé 
na madrugada fria,
no elevador vazio,
esperando o vizinho
próximo ao meio fio -
fila pro coletivo.
Ficou de pé, pois não havia vaga.

Ficou de pé 
à porta do trabalho,
para bater o ponto,
junto ao balcão da loja,
na fila pro almoço.
Comeu de pé, pois não havia pouso.

Ficou de pé 
para pedir aumento,
para levar esporro,
para pedir desculpa,

pra trabalhar de novo,

pelo resto do dia.
Voltou a pé, porque não tinha grana.

Ficou de pé 
em frente à portaria,
no elevador vazio,
no terraço frio.

Morreu dobrado, exposto sobre um poste.


sábado, 31 de janeiro de 2009

Nave-gado-r



(para melhor visualização, clique na imagem)


De LetraZ Cyberpunk
De LetraZ Cyberpunk


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ado-(r/a)-ção


Aproximou-se.
Beijou meu rosto.
Esticou a mão
.
Amparou meus olhos
.

Mãe ou matrix?

"Escuta!", disse eu,
"Tenho fome de cristais.
Meus pés
beijam um chão
de afetos duvidosos.
Nada mais."



segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Esclarecimento...


Na estante,
o
best-seller
de Adorno.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Embala-gen [2.0]


A embalagem:
orgânico-letreiro
em branco e preto.

No br[eu],
a língua escava
a pele de asfalto.

PalavraZ embriagadaZ
na privacidade negociada
.



(Imagem:"Black & White III", de zorro-art)


domingo, 4 de janeiro de 2009

Tro[toi]r (1.1)

Pela janela,
a chuva fina
turva holofote e lua.


Sereias de neon brilham.

São constelações no olhar,
enquanto na sala,
os cavalos dos meus sonhos
não trotam.


sábado, 3 de janeiro de 2009

Cristal Drop Doll

Sob a luz arte-facial
- semi-espiritual -
tom de Saint Germain,
vibra o vigor g'ótico
- inestanque pós-punk -
no olhar de vitrine.

Ante um crime congênere
- atrás do vidro -
a vítima se agita e a voz
- travestida de luz -
um peep-show abriga.


(Imagem: "Cristal Drop - Las de la intuición", Paola Camargo)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Zen-ware



Vivo à margem
da Vida
e dentro, no centro,
escondido e invisível
e visível,
absorvendo, absorvido
e contendo, contido
e contido, virando,
não vivendo, não morrendo,
mas tendo, pois sendo.



segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Célula 02

O coração da dor é azul.
A duradoura alegria é fugaz.
O abajour do mundo é lilás.

Enquanto eu:
daltônico algoz.

O elevador do ser é o sol.
O elemento da voz é o tom.
O alimento do caos é a queda.

O grão da vida
germina na cell-a.

A prova do fim é o pé.
A morte da ânsia é o pão.
A flor da miséria é o pus.

Nascido no ontem,
e pós.



Equilíbrio perdido

EU
ao encontro de =
se.

EU

fragmento de = atma
.

EU
distante de = karma.

EU

ao encontro de
= dharma

EU

a procura de = MiM.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Célula 01


Minha busca
a mim mesmo assusta

quando lida
com o vau da vida.



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

404 Document Not Found

O sumo:
buscar
um rumo
na rede.


Um copo
de sonho
pra sede.


O lodo:
o saber,
os sites
e o engodo.

A sensação

de não


estar



no todo.

Exame

(V)ejo o
(F)im
(V)indo em
(F)orma de
(V)iruZ?



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Milagre minemônico



OUÇO

A MEMÓRIA

PERVERSA

DO QUE NUNCA

HOUVE.




terça-feira, 4 de novembro de 2008

Crepúsculo das Horas

Para melhor visualização, clicar na imagem.
QUASE QUASAR, CADA PALAVRA. QUASE TAKION, CADA MEMÓRIA. QUASE QUANTUM, CADA HISTÓRIA. QUASE CYBER, CADA ENCANTO. QUASE PUNK, CADA LEVANTE.

domingo, 2 de novembro de 2008

Angústia felina 1

Estar no silêncio.

Bigodes ao vento e o tempo...


... espancando a cara corada

por sol

em aerosol.


Estar no momento.

Tão só no momento.

Tão


só...


Estar na Estréia.

Happening irrequieto:

sem platéia,

irrequieto,

sem texto,

irrequieto,

sem fala,

sem voz

.


A noz

da cabeça,

de angústia,

rachada.




Vítima-vitrina. Luz vivaz.

[Onde estão meus natais?]


Star no silêncio.

Felino indecente.

Fellini sem cinecitá.



Estar no silêncio.


Pêlos eriçados.


O vento na pele

- DURA DE CERTEZAS -,

desenha trincados.


Bigodes ao vento,

relendo o relento.


E o tempo...




O tempo...





O tempo





espancando o momento

num beco

repleto

de pó

.




sábado, 1 de novembro de 2008

DATA 01: Ante[s] cyberpunk



Frio-silício. Silêncio trotante.
A
SENSAÇÃO_DE_CONEXÃO_CONSTANTE

e
a sensação
de
Não
estar
no
TODO
a todo instante.

Diante do espelho,

eu não reconheço
o Eu de ante[s].
Grotesco e elegante,
androidesquizóide,
Andrógino galante:
meu avatar
estampa o meu semblante.